domingo, 13 de maio de 2018

Gente morna não me convém


Porque eu gosto mesmo é do que me tira do estado de apatia, do que me inquieta o cérebro e bota para pensar. Eu tenho uma queda por quem me intriga, desafia e rouba o controle.  Esse gosto pelos limites da vida, por vezes me mete em encrencas não previstas, admito, mas por outra ótica, me faz desfrutar prazeres que eu não teria acesso, estando sentado no tédio de uma sala com ar condicionado e tv à cabo.
Talvez eu soe dramático e até ranzinza, mas ainda não consegui acompanhar a agilidade do desapego moderno. Parece que estamos vivendo de relações rasas, diversão rápida e conversas adiadas. Você recebe a mensagem e deixa ela lá, guardadinha, para ser lida e respondida depois. Você grita sua independência e satisfação pessoal nas mesas de restaurantes badalados, em encontros marcados por aplicativos e em festas de família. Como se  não precisasse de quem está ali, de fato, ao seu lado. 
Somos mornos. Como café requentado de repartição publica envelhecida. Somos narcisistas.  Não precisamos dos elogios alheios, nossos livros de auto-ajuda ensinaram e nossas redes sociais externaram.  Mas nós mentimos. Todo o tempo, com voracidade. Estamos carentes e por baixo do discurso de “tô ótimo”, vivemos tentando chamar a atenção e garantir um pouco de amor para degustar como sobremesa, depois de comer aquele prato enorme de sushi, porque sushi rende mais “likes”, claro.
Fingimos interesse no trabalho, ignorando completamente a vontade de levantar da mesa e mandar o chefe pastar. Fingimos sentimentos, para ter orgasmos fingidos  com pessoas que não nos enxergam, em parte porque nós mesmos não permitimos.
Estamos ficando sem assunto. Temos manchetes de jornais decoradas, discursos ensaiados e monólogos completos sobre qualquer coisa, que tenha sido pauta recente no facebook. Mas basta alguém discordar e lá estamos nós, perdendo o rebolado, a linha de argumentação e até o respeito. Nos tornamos incapazes de manter uma conversa que aprofunde, fique intima ou que faça pensar.
Nos medimos, todo o tempo, comparamos e prescrevemos nossos próprios medicamentos. 
Tá faltando paixão. Aquela que te movimenta o corpo, aquece a alma, arrepia a pele, deixa os olhos úmidos e faz querer viver. Tá faltando perder o medo de mergulhar fundo, de largar tudo e recomeçar, mesmo que do zero, apenas com coragem de correr atrás dos sonhos que não nos deixam dormir. Falta dar atenção para o que se tem nas mãos e dar valor para quem está perto.
Precisamos de mais fôlego, mais vontade de viver as coisas que temos e menos de ter mais coisas. Porque a vida é um negócio que passa pela gente mais rápido que trem bala, quando você vê, ela tá lá longe e você perdeu novamente o bonde.

Loui K.

domingo, 29 de abril de 2018

Você não tem tempo

Não vai dar tempo.

Você não vai ter tempo de ler aquele livro. Daqui a trinta anos, quando morrer, ele ainda vai estar na sua fila de leitura. Fechadinho.
Aquela mulher? Não deixe pra sair com ela amanhã. Ela vai encontrar outro cara. Vai refazer o coração partido. Vai ser atropelada. Vai se descobrir lésbica.
Ou, talvez, apenas, quem sabe, vai sair da sua.
Quem hoje te beijaria amanhã nem boa noite vai te dar.
O futuro que vocês poderiam ter tido não vai acontecer.
Tudo porque você não foi lá hoje.
Vá lá hoje.
Aquela rua nunca vai ouvir o som dos seus passos. Aquela revista? Nunca mais vai abrir.
"Temos tempo", ela disse.
Mas é mentira. De propósito ou por ignorância.
Não temos tempo.
A palavra rude que você disse para alguém que não gostava? Peça desculpas hoje.
A palavra carinhosa que você nunca disse para alguém que gostava? Diga hoje.
Você não tem tempo.
Lembra como a vida corria quando você tinha quinze anos?
Pois está correndo hoje.
Sabe aquela sensação quando dá seis da tarde e você pensa:
"Caramba, já acabou o dia... e não fiz nada!"
Você vai sentir o mesmo aos quarenta. Ou aos cinquenta. Ou sempre.
Faça agora.

Alex C.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Tempos Líquidos


Acordei, peguei o celular. Ignorei as mensagens dos grupos. Fui direto para a conversa com ela. Mandei “bom dia” acompanhado de uma carinha fofa. Larguei o celular, levantei. Cumpri o ritual das manhãs. Dentes, banho, roupa. Enquanto tomava uma enorme xícara de café, olhei novamente o telefone. Dois tiques azuis no meu “bom dia”. Nenhuma resposta. Guardei a leve chateação. Fui para as obrigações. 45 minutos depois, nada. 2 horas mais tarde, Nada! Mandei aquela carinha com o polegar e o indicador no queixo. Funcionou. Ela respondeu. “Bom dia, tudo bem com vc???”. Ufa. “Tudo, tudo. E como vc passou de ontem pra hj?”. 2 minutos. 5 minutos. “Tô na correria aqui dpois nos falamos bj”. Poxa. “Ok. Tô por aqui, é só chamar. Bjo”. Voltei para os afazeres. Saí para o almoço. Voltei do almoço, rodei pelo Facebook. Ela postou uma foto com um amigo. Será que eu curto? Curti. Será que comento? Não. É demais. Abri mais uma vez o papo com ela. ONLINE. E nada de falar comigo. Nada! Passei a tarde fingindo me importar com outras coisas. Caiu a noite, e nada dela. Fui pra casa. Vi um episódio de La casa de Papel, já não era tão interessante. Deitei para dormir. Abri a conversa. ONLINE. Mandei o orgulho definitivamente às favas. Arrisquei uma frase. Apaguei. Arrisquei outra. Apaguei. Uma terceira. E enviei. “Acabei de ver um episódio de La casa de Papel. Nossa, o Professor!”. Tentei parecer despreocupado, relaxado. tranquilo. 2, 5, 7 minutos. ONLINE. “Acontece hahahaha”. Só isso? Nada mais? Ela não perguntou do episódio. Não perguntou do meu dia. Não continuou o papo. Ainda joguei um “hahahaha sim”. Larguei o telefone. Dormi chateado. Acordei, nó na garganta. Peguei o celular. Abri a conversa com ela. Não vou mandar “bom dia”. Ainda tinha um pouco de dignidade!
Eu juro que reli umas 30 vezes os nossos papos para tentar achar onde foi que nos perdemos. Onde foi que eu a perdi? Por que ela "foi embora?" Por que ela parou de responder? Ainda no dia anterior, ela tinha me mandado uma música linda e criado um apelido fofo. O papo estava indo, sabe? Depois disso comecei a refletir um pouco. Bauman tinha razão: "vivemos em tempos líquidos e nada é pra durar"
Marcos B.

segunda-feira, 26 de março de 2018

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A vida adulta tem umas solidões esquisitas


Solidão de adulto é foda. E não se resolve com transa. Nem com compras em shop, porre de vodka com energético, ou almoço de família. A vida adulta tem umas solidões esquisitas. Do tipo que pai e mãe não dão jeito e nem amigos festeiros dão conta. É solidão de alguém para abraçar  e diminuir as dimensões da cama, na hora de dormir. Solidão para viajar até a praia e pular o carnaval, sem pular nele.
Claro que estar só não é ruim. É essencial saber ficar bem sozinho. Você pode e deve fazer uma porção de coisas sozinho. Viaje para algum canto em que você seja anônimo e fique apenas você e sua mochila, por uns dias. Assista aquele show que tanto quer, mescle-se na multidão de rostos desconhecidos e cante alto com seu inglês meia boca, perca a vergonha. Tome seu café na varanda, com um livro por companhia e experimente esses momentos a sós. Eles servem para aprender  mais sobre si e sobre o mundo.
Porém, vez ou outra, possivelmente surgirá aquela noite em que o quarto ficará grande demais, o carro gelado e a lasanha de microondas, porção individual, te dará um tapa na cara. Você vai olhar ao redor querendo encontrar uma expressão familiar, alguém que te pergunte sobre seu dia, que seque a louça enquanto você lava (apesar do clichê) e que divida uma bacia de pipoca quente e amanteigada, enquanto vocês assistem o filme novo, nem tão bom assim.
Estar sozinho não significa estar solitário. Mas, a solidão em si, é um troço cruel demais. Ela te fode o cérebro, sem piedade, sem carinho na nuca e sem cigarro dividido aos pés da cama. E por mais que você busque remediá-la com encontros  e transas, vai acabar acordando com o efeito colateral de um estranho completo, dormindo ao seu lado. O que pode ser pior, ou melhor…dependendo da sua reação deste momento em diante. Se a ideia era lance casual, ok. Mas se foi uma busca por preencher algo maior, as coisas podem complicar.
Parece que faz parte da vida adulta, sentir esse aperto no peito, essa vontadezinha de ter alguém ao alcance da mão, da pele e do abraço. Mas buscar abrigo no prazer alheio, não resolve isso. É preciso mais. Se a falta de companhia incomoda, tem que resolver. Eu entendo que abrir a casa e a vida para outra pessoa é assustador, mas quando a ausência de alguém é grande e dolorida, é porque é hora de parar de procurar paliativos e botar a solidão para escanteio de vez.
E para isso, tem que ter os olhos e o coração abertos. Tem que dar espaço para aquela amizade nova, surgida na fila do caixa. Tem que retribuir aquele sorriso que te encantou, no meio de um bar transbordante de gente, numa sexta à noite. Tem que se permitir conhecer outras coisas, outros lugares e outros amores. Parafraseando o poeta, não prepare apenas um café, prepare a vida. Porque ao contrário do que dizem, acredito que coisas boas surgem quando a gente realmente espera  e está preparado para elas, do fundo do coração.
Loui K

sexta-feira, 16 de março de 2018

"Eu" precisa ser reinventado.




Estava tão desesperado pra que algo bom acontecesse em minha vida que deixei de viver, e comecei a acumular amargura e decepção que esqueci-me da simplicidade e leveza da vida.
Se não deu certo, não era a hora.
Se a vida parou de andar, é pra que às forças sejam renovadas.
Se chegou ao fundo do poço é porque o seu "Eu" precisa ser reinventado, pois novas coisas virão.
Se você se perdeu no meio do caminho, talvez tenha que encontrar algo antes de voltar.
Se os problemas são muitos, olhe de outro ângulo há sempre uma nova resposta a ser descoberta.
Se ás coisas já não são mais às mesmas, seja diferente como a situação pede.
Ás vezes a vida nos derruba, para que possamos nos refazer ao se levantar.